domingo, 4 de novembro de 2007

Texto perdido no ármario (2005)

O QUE EU VOU SER QUANDO CRESCER?Aos 8 anos de idade essa já era uma questão praticamente resolvida para mim: bastava eu decidir entre ser jogadora de volei ou ser astrounata. (Como convencer o técnico da seleção ou os cientistas da Nasa a me contratarem eram apenas alguns detalhes que seriam resolvidos depois.) Mas tudo mudou aos 10 anos, quando foi a primeira vez que entrei no mar com uma máscara de mergulho. Ali mesmo, na praia, perguntei ao meu pai qual era a faculdade que se fazia para virar mergulhadora. Dali em diante, quando me perguntavam "o que você vai ser quando crescer", eu falava: "Oceanógrafa!"Os adultos me olhavam admirados, crentes de estar diante de uma pirralha com verdadeiras ambições científicas, embora meu único desejo fosse ficar boiando e vendo peixes coloridos, polvos, arraias, corais,...Só lá pros 13, depois de compreender que eu era muito limitada no vôlei, as dificuldades junto à Nasa, e descobrir que uma oceanógrafa passava mais tempo estudando biologia do que boiando no mar, percebi do que realmente gostava: escrever. Foi quase sem querer. Na aula de redação escrevi um texto sobre pais divorciados e quando minha professora leu quase chorou. Fiquei absolutamente entusiasmada; Era possível, simplesmente rabiscando umas palavras no papel, fazer com que pessoas chorassem?! rissem?! ficassem com medo?! Era isso que eu queria fazer!! Passaram-se 4 anos e hoje em dia sou fascinada pela advocacia, pois exige que eu saiba falar e escrever muito bem, mas também há dentro de mim uma imensa vontade de cursar jornalismo. Estou com medo de ao optar por uma dessas faculdades, me arrepender ao começar a cursá-las. Claro, nada impede que aos 30 anos eu tenha uma crise existencial e descubra que estive equivocada e o que realmente me dá prazer é ser analista de sistema ou alimentar pingüins do jardim zoológico, sei lá - pra quem passou de jogadora de volei a astronauta a oceanógrafa a escritora a advogada, não será nenhuma novidade.Isso tudo pra dizer que a nossa profissão, a atividade na qual teremos mais prazer produzindo alguma coisa, não é algo que a gente invente, mas descobre. Talvez eu entre numa faculdade, arrume um estágio, abandone a faculdade, saia do estágio, tente outro curso, resolva pintar umas camisetas e vender por aí, desista de camisetas, descubra que as matérias da faculdade são mais interessantes, até que uma hora eu me encontre de verdade: seja boiando no mar, estudando jornalismo, rabiscando sobre uma prancheta, fazendo textos, comida japonesa, administração de empresas ou ginástica rítmica. Eu sei, o caminho será cheio de tropeços, mas quem sabe não é em um deles, com a cara no chão, que eu descubro que a minha grande vocação é fabricar tapetes?!

(E depois de tantas incertezas, nunca pensei que faria vestibular para letras - infelizmente contrariando todos, mas felizmente super empolgada...)