sábado, 15 de dezembro de 2007

'A carta'

Me olho no espelho muito freqüentemente e uma das coisas que dá pra notar com facilidade em mim são as cicatrizes que carrego comigo. São lembranças das minhas “artes” infantis, das fatalidades do destino, do desastre infinito em pessoa. E dentre essas, tem umas que sei onde estão até de olhos fechados. Tenho uma marquinha nas costas desde criança que é lembrança de uma catapora; tenho uma mancha na perna de uma certa vez que tomei uma vassourada; tem a marca estranha da BCG no braço direito, marcas de tombos (provenientes de bicicleta ou do meu jeito desastrado de ser) mas, de todas elas, nenhuma chama mais atenção do que a que você deixou dentro de mim, na minha alma, no meu coração. Um carimbo que não negaria jamais que você mora aqui dentro. Ela é invisível aos distraídos, mas se prestar atenção, dá pra vê-la no meu olhar, na minha esperança de tornar as coisas iguais às de antigamente, na minha crença de que um dia eu vou conseguir deixá-lo da mesma forma que éramos antes de acontecer tudo o que aconteceu.

Hoje, ao olhar pra mim, vejo que você sempre esteve ao meu lado, e eu nunca pude enxergar. Tinha deixado você escondindo em algum lugar alto que eu não pudesse alcançar junto àqueles arrepios que você me dava, as lembranças que você deixou em mim, os desejos que me obrigava a não recordar. E finalmente, foram embora aqueles olhos frios e distantes, que agora são certos e brilhantes. Aquela geleira entre nós, já foi, isso eu tenho certeza. E só ficou as suas cicatrizes em mim que me desfigura de tal forma que às vezes sinto que sou outra. E a BCG do meu braço que tenho há 17 anos e a marquinha da catapora em minhas costas que agora já fazem parte de mim, me fazem pensar que, essas marcas que deixas todos os dias em mim, também são pra sempre...