Me fiz essa pergunta como quem se perguntasse as horas. A ouvi e, silenciosamente, achei que me caia bem como uma luva. Mas não contei.
"E quem tem pudor quando ama"? Levantei-me da mesa como se fugisse dessa frase.
É Nelson Rodrigues, em "A Vida Como Ela É", um diálogo entre duas irmãs: uma santa, e a outra finge que é. A que finge, rouba o namorado da outra, então ocorre o dialogo entre as duas.
"E quem tem pudor quando ama"? Acendi a luz do banheiro, sem nem mesmo precisar procurá-la. Já sabia onde estava. E a pergunta martelava na minha cabeça, como se quisesse me dizer alguma coisa. Foi aí que entendi. Essa pergunta não era uma pergunta.
Voltei pra mesa em 2 minutos que solucionaram enfim as questões que, fazia tempos, estavam sem respostas.
"E quem tem pudor quando ama"? Desculpe-me, eu não tenho.
Chame a falta de pudor do que quiser: falta de vergonha na cara, falta de amor próprio, loucura, idiotice. Neste caso, chamo de paixão. E olha que paixão e pudor são duas coisas que não tem nada a ver. Água e óleo. Não se misturam. Paixão e razão não moram na mesma casa. Paixão te rasga a roupa enquanto a razão cata os pedaços no chão. Paixão te entrega num suspiro profundo e ardente, enquanto a razão te pede para acalmar. Paixão faz você fechar os olhos bem forte e deixar os sentidos guiarem seu atos enquanto a razão.. a razão foi embora. Paixão faz você perder os sentidos e perder a razão.
"E quem tem pudor quando ama"? Finalmente, estou perdoada.