Hoje a tarde, reencontrei com uma menina que há muito tempo não via. Talvez nem lembrasse mais que um dia a conheci, mas no decorrer do dia-dia, com o passar do tempo, às vezes calmo como as tardes de domingo, ora agitado como o próprio homem, me faziam recordar das suas histórias, das suas tristezas, dos seus dramas, da sua solidão. Sempre assisti bem de perto tudo o que acontecia na sua vida, embora ela nunca tivesse a coragem para se abrir com alguém. Escondia seus segredos até de si mesma, estampava no rosto a fortaleza que almejava ter, e era admirada por isso; sempre ouviu de todos, inclusive de mim, que era muito madura para seus poucos anos de vida, mas ela nunca pôde entender o que aquilo significava.
Mesmo com pouca idade, teve que aprender como crescer vivendo em uma guerra; guerra essa, que chamava de lar. Sem nunca saber onde se proteger da tempestade, escondia-se no escuro debaixo da cama de seu quarto, esperando que aquilo acabasse logo. Frequentemente se perguntava por que carregava toda aquela frieza, quando sabia que todos haviam ajudado a construir os muros em volta de si que contruiu. Não sinto saudades dela... De vez em quando, esta menina me deixava perplexa por tamanha frieza. Isso me irritava. Presenciava sua vida ser destruída aos poucos e ela não chorava. Seu pai saiu de casa levando tudo o que lhe pertencia consigo, disseram-me que estava morando agora na Barra. Sua mãe ficou por um tempo internada, havia desenvolvido uma doença grave. A menina só foi visitá-la uma única vez, mas teve a sensação de que a mãe não a reconhecera. Confessou-me um tempo depois que não aguentava olhar para os seus drenos, por isso não voltaria ao hospital. Seu irmão ficou maluco, deixou o cabelo crescer e depois encheu de dreads, parou de estudar, falar e comer, de vez em quando batia com a cabeça na parede.
Sombras passam a noite por uma abertura na porta. Ecos de uma criança ferida gritando - "por favor, parem!" - Talvez nunca entendam o dano que causaram, ainda que seja apenas uma memória, nela permanece vivo. Vivenciara tudo isso e ainda assim, não chorava... No reveillon foi empurrada degraus frios abaixou, e enquanto olhava seus machucados na escada, eu batia ainda mais. Tripudiei em cima daquela criança até que chorasse copiosamente tudo o que havia guardado. Finalmente consegui devolver sua sensibilidade que tanto lhe faltava.
Depois desse dia, nunca mais a vi. Me assustei ao encontrá-la hoje já crescida, cursando a faculdade, e encaixotando algumas coisas para sair de casa. Contou-me que precisava viver a sua vida, e eu não sei bem o que ela quis dizer com isso. Eu disse que queria abraçá-la e ela se encarregou do resto. Perguntou-me se sentiria saudades dela, se poderíamos nos encontrar de vez quando.
- Você é eu. Declarei.
- Como posso sentir saudades de mim mesma?
Sem olhar para trás, ela saiu pela porta da frente e deixou a chave pendurada na fechadura. Acho que quis dizer com esse gesto que não voltará mais.
Hoje, sei que ainda demorará muito tempo para nos reencontramos novamente. Mas graças à ela, atualmente dou muito mais valor as pessoas ao meu redor, observo mais as bonitas imagens que posso ver através dos meus olhos, e presto mais atenção em tudo: nas areias que voam com a brisa do mar ou nas três cores do pôr-do-sol. Sempre que penso nela grito meu desejo dentro do oceano. Acredito que a resposta que vier, será para o bem de nós duas...