Na próxima semana, termino o semestre na faculdade e hoje, fiquei sabendo qual será o tema do trabalho final: produzir um texto descrevendo o professor mais importante que já tive.
Queria escrever muitas coisas, já tive vários professores e por que não, professoras incríveis, gostaria de poder homenagear cada um deles neste trabalho final, mas começando a redigir o texto percebi que a dificuldade do trabalho não estava em escrever no padrão e corretamente. O desafio maior seria a escolha que teríamos que fazer. Selecionar um único professor entre mais de quarenta durante a época escolar. Dezenas de pessoas a quem devo toda a minha vida.
Hélio Ricardo, tive a oportunidade de ter aulas de Redação com ele apenas por dois anos, mas gostei tanto que se você está lendo esse texto agora, pode ter certeza de que a culpa é dele. Hélio não me deu apenas aulas, ele escolheu a minha carreira.
Aconteceu tanta coisa esse ano, tanta coisa que eu gostaria de contar a ele, de pedir sua opinião... Reproduzo aqui, em homenagem ao mestre que infelizmente eu perdi o contato, mas com grande emoção ao lembrar das melhores terças-feiras que já tive.
Hélio, foi a pessoa mais inteligente que já conheci. Lembro quando entreguei a primeira redação(horrível) e não sei por que nem como, ele elegeu a melhor que já tinha lido nos últimos tempos. Me elogiou na frente da turma inteira, e eu morri de vergonha - e de felicidade, claro. Não é qualquer dia que você é eleita "a melhor" por uma pessoa que você admira - talvez ele deve ter visto alguma coisa ali; não sei dizer o que era, porque o Hélio tinha isso de ser meio misterioso. Ou estranho, dizem alguns. Algumas vezes eu mostrava uma série de redações com dezenas de temas e ele lia, olhava para mim e me devolvia as folhas sem dizer nada. Era frustrante? Muito. Mas aí eu percebia que tinha que adivinhar o que era bom e o que era um lixo. Acredite, isso ensina muito.
Ensinar, aliás, é o que ele fazia de melhor. Eram grandes aulas. Não só no sentido professoral da palavra, mas no modo de dar uma notícia qualquer e ressaltar o que era importante e o que não era. Um detalhe pequeno, que você nem dava bola, podia ser a coisa mais interessante do mundo; bastava saber olhar. E isso foi uma coisa que o Hélio ensinou não apenas a mim, mas aos inúmeros alunos que se entristeceram ao saber que não o teriam mais como mestre no próximo ano.
Na escola, mais precisamente no 2º ano, eu era represente de turma e escrevi um projeto para a coordenação sobre um curso de redação à parte com o Hélio. Todo mundo adorou a idéia. Durante alguns meses criamos uma turma que mantém pouco contato, mas muito carinho até hoje: Fernanda`s, Léo, Popota, Vivian, Lilian, Piero, Clara e vários outros. A gente se fala de vez em quando; gostaria que fosse mais frequente.
Saudades dói pra burro (ele ia odiar ler 'pra' em vez de 'para'). Já estou com saudades de ver o Hélio todo durão dentro de sala, e um doce no corredor; todos os dias vestido de preto me olhando por cima dos óculos pronto para contar suas piadas disfarçadas de seriedade que me faziam rir durante minutos; das redações se acumulando em pilhas e pilhas na sua mesa; do que ele escrevia nas dissertações após corrigi-las e ficava genial. Ainda bem que guardei minhas.
A última vez que falei com o Hélio foi em 2006 numa formatura. Falei que já tinha prestado o vestibular e que estudaria para o próximo em outra escola, mas nem precisava: ele já sabia de tudo. E com detalhes. Mas hoje eu me arrependo: eu deveria ter esticado mais a conversa e ter falado muitas vezes o quanto eu o admirava, deveria nunca ter faltado as suas aulas, deveria ter dito que não queria que perdêssemos o contato, deveria ter invadido mais a tradicional sala dos professores nas terças-feiras. Mas a vida é assim, a gente nunca sabe o que nos espera no ano seguinte. Nunca temos tempo para nada, tudo que realmente importa é deixado para amanhã. Ou para a semana que vem.
A cada texto, a cada frase que eu escrevo, eu imagino o Hélio lendo e comentando. Me lembro de sempre ir para o próximo texto, tentando imaginar o que eu poderia fazer para impressioná-lo, para que ele me chamasse na sala e dissesse: 'Ah! Carol, gostei da dissertação!', ou algo do tipo. Mas isso também não era sempre. Às vezes ele me chamava e dizia: "leia bem isso que você escreveu". E só. Eu tinha que adivinhar o que era. Nem sempre adivinhava, mas a vida é assim mesmo.
Estou um pouco perdida em um mundo onde gente como Hélio é cada vez mais rara. Sei que tenho a obrigação de ser 'o Hélio' de amanhã, mas a responsabilidade é muito grande. Assusta.
Agora só resta fechar os olhos, continuar a estudar e parar de vez em quando para me perguntar: "o que será que o Helio acharia deste texto?" Ele abaixaria os óculos, olharia de volta para mim e não diria nada.

